Paleografando

Dedico-me aos estudos do período colonial brasileiro desde 2009, quando ingresse em uma bolsa de iniciação à pesquisa (PIBIC), no projeto intitulado "Do Império Português ao Império do Brasil: o processo de distribuição de sesmarias na Capitania do Rio Grande, século XVIII". Era meu primeiro contato com a pesquisa acadêmica em um grupo de pesquisa. O primeiro grande desafio foi o contato com documentos de época: cartas de data e concessão de sesmarias, manuscritos dos séculos XVII e XVIII.



Imagem: Exemplos de caligrafias - carta de Sesmaria. Livro de Sesmaria - IHGRN


“Pela etimologia da palavra, tem-se de imediato o seu significado: paleo = antigo; graphein = escrever. Paleografia é, portanto, escrita antiga, ou seja, estudo da escrita antiga.” 
(MENDES 2008, p. 17).

A pesquisa tinha como ponto de partida a transcrição de tais documentos, o que nos requeria o conhecimento em Paleografia. Cursei a disciplina, oferecida pelo Departamento de História da UFRN como optativa para a formação da licenciatura. Ao fim do curso, me julgava apto para ler e transcrever qualquer documento antigo... lerdo engano. Cada documento é único. Cada escrita é uma. Cada escrivão tinha sua própria caligrafia e forma de "desenhar" e abreviar as palavras. 

Além do trabalho no projeto de iniciação científica - que me encaminhou para os estudos que se desdobrariam no meu objeto de pesquisa no mestrado - também participei de outros projetos que envolviam diretamente o trato e a transcrição paleográficas de documentos históricos. O primeiro deles foi a Plataforma SILB (DEHIS-UFRN), cujo objetivo era divulgar as informações das cartas de concessão de sesmarias de todo o Império Luso-Brasileiro (projeto ainda em andamento e que rendeu grandes contribuições para a historiografia potiguar); e a digitalização dos livros de registros de batismo, matrimônios e óbitos da Cúria Metropolitana do Natal, que integrou um grande projeto de financiamento internacional de divulgação de dados demográficos e genealógicos históricos. 

Aos poucos - e com o trabalho constante de leitura e de decifrar letras e símbolos - o pesquisador de colônia familiariza-se com os manuscritos antigos. Devido a característica de muitos documentos de época serem seriados (como as cartas de sesmarias ou correspondências e documentos oficiais de cunho administrativos) ou terem uma estrutura padrão (cartas patentes), é possível que o pesquisador passe a conhecer a letra de um escrivão de séculos atrás ou os jargões específicos de determinada instituição. Chega-se a ponto de reconhecer a caligrafia de um sujeito entre tantas, ou decifrar uma rubrica detalhada só de bater os olhos. 

Mas a paleografia não se restringe aos documentos do período colonial. Sua aplicação vai desde os textos do português medieval aos contemporâneos, do século XIX e início do XX. 

A "Era da Informática" tem revolucionado os estudos históricos no Brasil e no mundo. Hoje há o interesse e a busca por formas de salvaguardar documentos antigos para as gerações futuras, fazendo-se uso das tecnologias mais inovadoras possíveis para guardar versões digitais dos documentos e, sempre que possível, transcrevê-los. Até  mesmo programas de reconhecimento de caracteres estão sendo aplicados para a resgatar as informações contidas nos documentos históricos e assim mantê-las para a prosperidade.

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MENDES, Ubirajara D.. Noções de paleografia. 2. ed. rev. São Paulo: Arquivo público do Estado de São Paulo, 2008.

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